Cultura

“Rei dos tambores” quer deixar legado

Joãozinho Morgado, “o rei dos tambores”, manifestou, hoje, em Luanda, a disponibilidade para ajudar a formar as novas gerações de percussionistas, com os conhecimentos obtidos ao longo de mais de 50 décadas de carreira.

O “mestre”, como também é tratado, disse estar disponível a ensinar o “segredo” por detrás de muitos dos êxitos da música angolana. Apesar dos 73 anos, o artista está a sentir-se ainda com “garra” para continuar a dar contributo ao desenvolvimento da música popular.

Os únicos entraves na realização de tal tarefa, contou ao Jornal de Angola, é a falta de verbas e de um espaço condigno. “Porém, o local não é tão importante assim. Não preciso de um espaço para ensinar os jovens a tocarem tambores”, disse, além de lamentar, também, o facto de muitos percussionista da mesma geração e outros continuarem a passar despercebidos na vida artística e cultural do país. “Muitos deles poderiam ser melhor aproveitados, devido ao conhecimento que têm sobre a arte”.

Igual a si
João Lourenço Morgado nasceu em Luanda, no Bairro Operário, no dia 7 de Fevereiro de 1947 e começou a marcar o compasso rítmico das tumbas com apenas dez anos de idade. À época, 1957, seguia a turma do Santo Rosa, na altura versões reduzidas dos grandes grupos de Carnaval.

Com 14 anos ajudou a fundar, com Carlos Giovetti (chocalho), Franco (bate-bate), Domingos Infeliz (dikanza) e João da Sparta (caixa), um pequeno grupo musical, que deu origem, depois, aos Negoleiros do Ritmo, já com Dionísio Rocha como vocalista e compositor.

Ícone do semba, Joãozinho Morgado tem o nome gravado na história da Música Popular Angolana como um artista que cobre um passado de referência criativa, proporcional aos valores mais autênticos da angolanidade.

No dia 20 de Julho de 2007, Joãozinho Morgado foi homenageado em cerimónia realizada no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, pelo contributo dado ao desenvolvimento da música angolana, ao longo de 45 anos de carreira, numa iniciativa da Brás Som.

Mestre Geraldo, pai de Joãozinho Morgado e figura emblemática da “Massemba”, também designada rebita, foi acordeonista, professor de dança, dinamizador cultural e compositor, assim como esteve na origem da formação dos Novatos da Ilha e Feijoeiros do Ngola Kimbanda, grupos de referência do Carnaval de Luanda.

“Ai Compadre”
Em 1964, convidados pelo promotor musical Luís Montez, os Negoleiros do Ritmo, com Nando Cunha (dikanza), Jajão (viola), Dionísio Rocha (voz) e Joãozinho Morgado (tambor), gravaram o single “Ai Compadre”, numa digressão por Portugal.

Um mês depois da digressão, os Negoleiros do Ritmo passam por uma das mais importantes metamorfoses do conjunto, quando se juntam aos instrumentistas Almerindo Cruz (viola ritmo), Carlitos Vieira Dias (guitarra ritmo), Massano Júnior (caixa e bongós), Mário Fernandes (guitarra solo) e Zé Fininho (dikanza).

Joãozinho Morgado permaneceu nos Negoleiros do Ritmo até 1974, tendo participado na gravação dos principais clássicos do grupo, como “Mukondadiá Lemba”, “Riquita” e “Minha Cidade”, temas interpretados por Dionísio Rocha.

Batucadas
Convidado por Carlitos Vieira Dias, Joãozinho Morgado integrou, também, a primeira formação dos Merengues, grupo afecto à Companhia de Discos de Angola (CDA), de Sebastião Coelho e Fernando Morais, com Carlitos Vieira Dias (baixo), Zé Keno (viola ritmo), Gregório Mulato (bongós), Vate Costa (dikanza) e Zeca Tirylene (viola ritmo).

Na fase de maior qualidade produtiva (1975-1977), Joãozinho Morgado participou na gravação das principais referências discográficas dos Merengues. Em 1982, ainda a convite de Carlitos Vieira Dias , juntou-se ao conjunto Semba Tropical, com Massikoka (teclas), Dina Santos, Mamukueno e Joy Artur (vozes), Candinho (caixa), Sanguito (saxofone), João Sabalo (trombone), Mick (trompete), Zé Fininho (dikanza), Rui Furtado (bateria), Botto Trindade (viola solo), Caetano (viola baixo) e Rogério (viola ritmo).

Joãozinho Morgado abandonou o Semba Tropical em 1984 e juntou-se ao cantor e compositor Filipe Mukenga, no início da formação da Banda Madizeza, com Kinito Trindade (baixo), Mário Furtado (bateria) e Rui César (teclas). Neste conjunto, participou na gravação do primeiro CD a solo de Filipe Mukenga, “Novo Som”, 1989, e no álbum “Eme Ngó”, 1991, de Sabú Guimarães.

Finda a existência da Banda Madizeza, Joãozinho Morgado, Kinito Trindade (baixo), Botto Trindade (solo), Carlos Burity (voz), Rui Furtado (bateria), Massikoka (teclas) e Nelson Santos (ritmo) fundaram a Banda Welwitchia.