Cultura / Música

Carlitos Vieira Dias encerra temporada em grande estilo

Ao som do violão executado com a autoridade de um mestre, levado para a criação artística por influência familiar, Carlitos Vieira Dias serviu sábado à noite, na intimidade da sala do Royal Plaza Hotel, em Talatona, como proposta de início de viagem pelo melhor da música de Angola, “Benguela”, um instrumental que mostra, na leveza da sonoridade de cordas dedilhadas com alma, a cidade e as suas acácias floridas, sem deixar de passar pelo emblemático Bairro da Peça e pelas praias de mil encantos, Morena e Restinga.


Depois de três anos de recuos e avanços, as cortinas foram descerradas, nos dias 1 e 2 de Dezembro, para um concerto digno de ser revisitado. “Carlitos a Tradição” marcou, em duas noites, o encerramento da quarta temporada do Show do Mês, projecto da produtora de espectáculos Nova Energia.
Pontualmente às 21h00, imagem de marca deste produto cultural, Salú Gonçalves saudou a plateia e, de seguida, chamou ao palco Yuri Simão, o rosto visível da máquina que elege como prioridade a satisfação de quem os procura, para dar as boas-vindas aos presentes, numa espécie de partilha do êxito: “Showistas, sejam muito bem-vindos. Muito obrigado por nos darem a possibilidade, pelo quarto ano consecutivo, de fazer o Show do Mês! Esse ano foi o mais ecléctico. Começámos com Aline Frazão, que está na sala. Tivemos Vozes de Março, Os Jovens do Prenda (homenagem), Orquestra Kaposoka, Calabeto (55 anos de carreira), Cantar Teta Lando, fizemos Angola 70, Maya Cool e hoje, depois de lutarmos durante três anos, temos a possibilidade de, tal como ontem, ouvir neste palco Carlitos Vieira Dias. Essa caminhada tem sido das coisas mais belas e más. Tivemos de lidar com as más línguas. Mas também tivemos a possibilidade de olhar para os vossos rostos e dizer no final que foi bom, cuiou. Muito obrigado a vocês!”

Mosaico para recordar
Foram distinguidos com o mosaico do Show do Mês: Euclides Matias, José Alberto Carvalho “Tozé”, Elvira Joaquim, Noémia Viegas, Joaquim Lunda, Jocelino Oliveira, Solange Brunhoso, Ofélia   Belo, Beto Vilhena, Aruna da Stromp, Tio Crespo e Formosa de Almeida. A Nova Energia estendeu os agradecimentos aos parceiros Unitel (internet), Eventos Online (transmissão) e CMJA (broadcasting/filmagem).
Para saciar a fome de música da plateia, a estrela da noite cantou “Nzala”, depois da visita ao “Clube Marítimo Africano”. O “Tabernáculo” abriu caminho para “Nvula”, uma chuva de emoções que encheu a sala embalada pelo “Poema da Farra”, antes da viagem ao “Lubango”, composição imortalizada por Waldemar Bastos, a retratar o beija-flor que canta cantos de encantar, bem como a gente trabalhadora que sabe acarinhar, “faz o coração abrir para o mundo/e a mente é o universo/lutando para dia de sol mais quente/só raiando paz/pão e amor/lalipo/lalipo/lalipo Lubango.”
Neto de José Vieira Dias, exímio intérprete do piano e da concertina, segundo escreveu Jomo Fortunato, Carlitos, filho do incontornável Liceu, o “maestro” do Ngola Ritmos, tem vida própria. Longe do manto protector da projecção artística do seu progenitor.
Ficou patente no palco do Royal Plaza a influên­cia estética do seu dedilhar
na sistematização da rítmica da música urbana angola­na, sobretudo o Semba. “Nzambi”, com a participação de Gari Sinedima, “Nguigui”, “Palame”, “Birim Birim”, “Negra Tomasa”, “Jingela”, “Mana”, “Passo de Sangazuza”, Marçalina”, “Destino da Madeira” e “Viagem Nacional” conduziram o concerto até ao “Encontro de Guitarras” de Carlitos Vieira Dias, Carlinhos Sete Cordas (convidado do Brasil) e Pascoal, moderado por Kizua Gourgel.               
Os temas “Eme Ngui Mona Ngola”, “Colonial” e “Mukajame” completaram o alinhamento do show, que serviu para assinalar os 70 anos de vida do músico e compositor. Nas despedidas, com a equipa da Nova Energia no palco, Yuri Simão lembrou Kieza Simão e Nelson Cantos, ausentes por doença, marcando o reencontro para Fevereiro, já na quinta temporada.